desucãomanização
Orelha / fúria pública / comoção / lei
Estadão, terça passada:
As construtoras e incorporadoras que têm a classe média como público-alvo enfrentam a tempestade perfeita: com o aumento na taxa de juros, o crédito imobiliário ficou mais caro para as empresas e também para o consumidor.(...) Esse cenário pressiona as margens das incorporadoras nas duas pontas, levando-as ao endividamento, à redução de lançamentos e até mesmo a obras atrasadas.
Quem não lê O Sétimo: 😱 [[pavor]]
Quem lê: 😯 [[finge pavor]]
Sigamos.
O primeiro passo está nas ideias; ideias precisam de espaço.
Ao falar das mortes no trânsito, duas possibilidades cruzaram minha cabeça para compor a argumentação sobre a sensibilização da opinião pública:
1) imaginar que os mortos são cães;
2) comparar com a quantidade de falecimentos da megaoperação contra o Comando Vermelho.
Não investi em nenhuma delas, apelei ao avião.
Era um receio nas redações, qualquer acidente aéreo arruina o jantarzinho. “Vamos subir essa matéria dia tal, salvo se cair um avião”. Uma figura inócua para demarcar o imponderável, sempre pronto para dar um soco no queixo e arruinar qualquer plano.
Peguei o avião para não dar mal entendido. Felizmente, nem eu nem você precisamos de provocação barata nesta altura da manhã.
Agora, entre cão e megaoperação, o que daria mais chance de dar problema? A primeira, claro. É a mais delicada neste momento em razão da comoção pela morte do cão orelha, que foi mais forte do que os 121 mortos nos complexos do Alemão e da Penha.
Passamos por várias mudanças bruscas sociais, frenéticas de um ponto de vista histórico. A desumanização é uma. A cãomanização, outra. Ou seria a mesma coisa, uma consequência da outra? Confabulemos a partir do au-au.
No final dos anos 1990, quem ferisse um animal pegava até um ano de cadeia, o que amiúde vira pena alternativa.
A Lei Sansão, impulsionada por um caso específico, endureceu em 2020 a punição para casos envolvendo cães e gatos. Agora a cana é de até cinco anos (+ ⅓ se houver morte do animal).
Estimado é o animal de estimação.
E agora, o caso do cão Orelha vai além e pede diminuição da maioridade penal em meio à comoção nacional raramente vista.
Mudanças são impulsionadas por exemplos. Neste caso, Orelha é vetor de um incômodo difuso. A recusa de Rosa Parks em ceder seu assento, o aumento de vinte centavos da passagem são disparadores.
Deputados argentinos aprovaram, com ampla maioria, a queda da imputabilidade de 16 para 14 anos há poucos dias. A fagulha foi o assassinato com 23 punhaladas de Jeremías Monzón, 15 anos. Três menores participaram do crime.
Sei que Bad Bunny uniu os latinos com Grammys e Super Bowl (obrigado, América), mas voltemos à situação brasileira, aos pedidos de diminuição da maioridade penal. O que querem os que desejam enjaular o(s) adolescente(s) que mataram Orelha? Cinco anos ou mais no cárcere comum mudam o quê? O RH das facções agradece.
Há um sentimento difuso. Não sabemos o porquê; só o quê.
PS: Torci para certas pessoas levarem multa


