Ocaso
Crueldades baratas
A imaginação humana é profícua em elaborar crueldades, ainda mais num contexto em que dizer é barato e não dá nada. Seja ameaça, ofensa, mentira, impropérios… a rede social aceita tudo, o anonimato veda tudo.
Lembro quando pedi divórcio do Twitter, site com o qual me relacionava desde o tempo em que era chamado de microblog. Foi diante do caso da aluna de medicina da USP que desviou R$ 1 milhão da festa de formatura dos colegas.
O consenso na rede social era de comemorar que os estudantes se deram mal. Embora compreenda –o curso de medicina costuma atrair pessoas ricas do tipo herdeiro de fortunas; o investimento milionário era para uma festa–, discordo. Não sentia schadenfreude, o prazer pela desgraça alheia, nem tranquilidade ou conforto para discordar.
Essa tendência se agravou. Hoje desejar que pessoas morram por dar spoiler é correnteza em que não se sabe se está sendo levado por hipérbole, humor, outra coisa. A onda de piadas entusiasmadas com a morte de adversários políticos me é estranha.
Os chistes elaborados em cima do falecimento de Olavo de Carvalho ou Charlie Kirk eram tão rasteiros que pareciam um escaneamento ideológico. Se eu não rir, eles vão achar que eu sou fascista?
Pelo sim, pelo não, he he he, tá bom?
Aprendi algo com Olavo de Carvalho na única vez em que vi um vídeo dele: passei a me policiar para usar menos palavrões. A linguagem chula do professor me serviu de anti-exemplo.
Pode piorar, claro, com casos como a comemoração pelo diagnóstico de câncer na Laerte. A justificativa é da linha infantil, “eles começaram antes a comemorar desgraças pessoais” ou, numa linha consequencialista, vem a argumentação de que as atividades da vítima geram outras mortes, pobreza, desgraças. Pronto, balizas morais pro espaço, vale-tudo.
E os donos da plataforma lucrando, dando migalhas para os arautos do extremismo.
Facetas da desumanização, termo usual para situações de guerra, em que um lado desumaniza o outro.
Mas aqui não se trata de olhar para uma nação, tribo ou povo inimigo. É uma desumanização a atacar massas de indivíduos, uma granada de fragmentos a mutilar inclusive quem arremessa, quem observa e quem elabora.
É o ocaso deste O Sétimo Dia. Um prazer.
Pretendo dedicar a energia que emprego aqui –por mais ligeira que ela pareça e é– em outro projeto. Tem a ver com livros, puxa vida, que surpresa. Devo escrever, vez ou outra, mas talvez não com a mesma constância semanal. Ou não, talvez. Deixe-me sentir.
PS: Leia o texto da semana passada ou eu mato este cachorro.

