Matança aprovada 𑨪
Empatia em falta: o cão, o presidente e a alma brasileira
Há um sentimento difuso. Não sabemos o porquê; só o quê.
O quê: a importância dos pets na sociedade cresceu. Ninguém discorda. Faço uma lista para dar medida e talvez começar a entender o porquê:
Negócios: Pet shops se alastram diferentes, sem a venda de bichos em gaiolas.
Língua: Chamar de tutor(a) ou mãe/ pai de pet em vez de dono(a).
Comportamento: Carrinhos antes usados para bebês agora embalam cães.
Norma: Lei (penal) Sansão mencionada semana passada; Lei (São Paulo) que autoriza o sepultamento de cães e gatos em jazigos familiares.
O refrão “Troque seu cachorro por uma criança pobre”, de Leo Jaime, agora soa mordaz, ácido demais. A capa da revista National Lampoon com uma arma apontada para a cabeça de um cachorro escandaliza.
Sensibilidades mudam e mudarão nos próximos passos da história. Passamos de maratona à corrida de cem metros.
“Matar um cachorro deixou as pessoas mais revoltadas do que qualquer outra coisa no jogo [The Last of Us Part II]. Mais do que enforcar pessoas ou eviscerar pessoas”, diz Neil Druckmann, diretor do game.
Outro “o quê”: Ao passo que os cães ganharam carinho, os seres humanos perderam. Uma relação de causa e efeito? É esse o porquê?
Humanos ficamos mais distantes uns dos outros. Sindicatos, partidos políticos e clubes se fragilizaram.
Li sobre isso pela primeira vez no livro Nova classe média?, de Marcio Pochmann, lançado em 2012. Portanto, não é um fenômeno recente; nada desde então parece ter freado essa tendência, pelo contrário.
Por isso, é essencial inventar ações comunitárias. Mundo do livro, se precisava de razões para manter e frequentar clubes de leitura, sirva-se.
Os encontros rareiam. Precisam ser agendados com antecedência. A mediação das relações por meio de interfaces digitais desumaniza, coloca máquina e ser humano no mesmo balaio. A interação é a mesma com o robô ou o amigo de infância no WhatsApp, se expressam de maneira parecida, difícil diferenciar.
A distância facilita o ódio, dificulta a empatia.
Lula é uma bússola bem calibrada do espírito da nação. Acompanho com atenção as manifestações dele.
Sei que entre os 400 leitores deste Sétimo1 há os que detestam a figura do petista.
Aqui, neste texto, isso pouco importa. O que quero enfatizar é que se trata de um líder relevante. Ninguém vence eleições majoritárias à Presidência três vezes (e vai concorrer a uma quarta como favorito) sem compreender a alma brasileira.
Por isso, quando Lula modulou o discurso sobre a megaoperação no Rio de Janeiro que matou mais de uma centena, fiquei de orelha em pé.
A antena do presidente captou o que os institutos de pesquisa Quaest e Datafolha apontaram em seguida: a população aprovou a matança. O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, ganhou dividendos políticos ao apresentar a operação como caso de sucesso.
Silenciosamente, apoiamos.
Lula só condenou a operação carioca quando esteve diante de veículos internacionais. Se não fosse pela COP-30, não teria a coletiva, o discurso permaneceria dúbio.
Em dezembro, a pauta da violência mudou. Passou-se a falar de casos de feminicídio. Lula: “Até a morte é suave para punir um cara que pratica violência contra mulher”.
Sem querer passar pano para feminicida, é uma frase pesada. Se a morte é suave, o que fazer? Dessa vez, convém definir logo o quê. A imaginação humana é profícua em elaborar crueldades.
PS: O desta semana é conexão direta com a semana passada
Audiência a qual sou grato.


