Acaso
Algumas leituras para fechar
Devo escrever, vez ou outra… coincidentemente, neste sábado, estou de volta. Acaso, friso. Não voltei ao ritmo semanal, apenas bateu a sensação de que poderia encerrar o rodopio sobre desumanização de um jeito melhor, com livros, esses oásis de profundidade, oposição ao tiroteio de internet. A degradação do corpo social avança, o assunto merece exemplos do que temos de melhor.
Começo por José Ortega y Gasset, filósofo importante para os hispanohablantes –circula bastante nas livrarias en castellano, estudei ele na faculdade na Argentina, é citado como influência pesada dos políticos mexicanos perfilados no livro Caudillos culturales en la Revolución mexicana, de Enrique Krauze,.
No Brasil, não topo tanto com ele.
O ensaio La deshumanización del arte, de Gasset, aplicou o vocábulo para descrever a atitude das vanguardas do início do século 20. Para o filósofo, os artistas estavam dando as costas ao público, complexificando sua arte e criando uma panela só para os iniciados. O modernismo cortou os vasos comunicantes.
Os artistas desse momento queriam romper com a estética anterior, suprimiram a carga sentimental, buscaram a metalinguagem. Desumanização, portanto, seria essa falta de empatia dos autores com o público, um muro.
A neodesumanização, no entanto, tem como cerne a vingança justiceira afobada. Quer intervir na balança da justiça. Sigamos nos livros, mas com um olhar fora do Ocidente hegemônico sem CITAR Crime e Castigo, por mais tentador que seja.
O mais recente encontro do Clube Tatuí de Leitura foi sobre Viver à sua luz, do marroquino Abdellah Taïa. O terceiro ato dessa obra, bem teatral, trata de um preso liberto que em essência se sente livre no cárcere. Fora, na rua, não consegue exercer seu amor, é ninguém. O sistema prisional não cumpriu a função de reeducação e reinserção, falhou.
Eu não sei você, mas o fato de o Brasil ter quase 1 milhão de pessoas cumprindo pena não me traz nenhum alento. Pelo contrário. Creio que há outros caminhos para a pena, e a tecnologia vem abrindo outros.
Bolsonaro ensinou que a tornozeleira eletrônica resiste até a ferro quente; Smart Sampa aparentemente faz das ruas um reality show. Quem sabe algo conjugando esses fatores, há tecnologia para fazer uma punição diferente, mais afinada com o objetivo da coisa.
Cartas, do japonês Keigo Higashino, outra leitura do clube, conta a história do irmão de um criminoso, que sofre sanções sociais pelo seu laço de parentesco.
Recomendo ouvir o editor do livro aqui no Brasil, Diogo Kaupatez, explicando, de maneira acessível, a moral e os costumes do outro lado do mundo.
Espalhar a punição / culpabilidade a quem está ao redor ajudaria? Em princípio, acho que se aproxima da ideia de “herança moral”, que já vitimou Maria Rita Kehl e a princesa belga na Bienal de SP. Ideia burra, para pegar leve.
Porém, facilitaria em casos de banqueiro ocultando $$$ na conta do papai, por exemplo.
Livros abrem espaço para este tipo de debate. Viva um clube de leitura.
Um livro me afasta deste Sétimo.
Este espaço me proporcionou escrever tão rápido um livro novo. Seis que são cinco, que vai sair pela Caseira, foi escrito em parceria com minha companheira Cecilia Arbolave (nosso primeiro livro juntos desde Curitibocas, veja só) em praticamente um dia.
Quer dizer, escrevia silenciosamente na cabeça, até que, na Quarta-feira de Cinzas, descarreguei no teclado. Mais ou menos na toada que conduzi este espaço. Estava aquecido na residência que fizemos na Caseira.
Em breve, livros um pouco mais elaborados.
Agora sim, tchau, um dia eu volto quem sabe.
PS: O começo do fim

